5.15.2009

mostras


Teoria dos Conjuntos
A justaposição nasce de um encontro, uma proximidade que forma o estar juntos. De mãos dadas ou diante de um conflito. Uma ação que se transforma em soma e que naturalmente é maior que suas partes – um assunto que percorre toda a produção de Amélia Brandelli.
O encontro de uma imagem e outra é o encontro de dois universos distintos, cuja significação muitas vezes têm o sentido de uma abertura que se dá através do olhar relacional que se estabelece. Quanto maior for a distância contextual entre um universo e outro, maior será o escopo dessa abertura. Paradoxalmente a abertura de significação se dá como alargamento e como imprecisão: nem sempre se trata de um aprofundamento, mas da perda da relativa unidade do sentido. Imagens são como brotos, raízes frágeis que se desprendem facilmente e que ganham novas histórias.
Jean Dubuffet afirmava que procurava pintar no interstício da palavras, das definições. Dessa forma ele pensava que as sensações e a imaginação seriam favorecidas pelo terreno impreciso e fértil onde a pintura se instalava. Por isso tanto se fala do “entre” como potência da junção, mais do que daquilo que é sujeitado por ela. A costura transforma a natureza das partes.
A relação que se estabelece entre as imagens nas montagens justapostas abre espaço para a busca por outros sentidos. Isso seria inútil se não fosse a promessa de um entendimento (ainda que inalcançável), mas a ênfase não está no sentido em si, mas na tarefa de buscar. O processo de formação de sentido têm no pensamento poético um aliado poderoso mas temerário: a possibilidade de experimentar a abertura nos faz pensar que tudo pode ser reinventado e reconstruído. Se as definições pertencem a categoria do passado, as aberturas (poéticas, conceituais), pertencem ao futuro, uma sala ampla onde podemos correr e brincar, se não tivermos medo.
Amélia, em seus trabalhos, resume essa equação simples aos afetos. Aos seus afetos, ao seu universo, aproximando assim imagens que já nos são estranhamente próximas: o terreno de onde foram transplantadas permanece um mistério para o espectador. As distâncias entre uma situação e outra se fundem e formam continuidades que a junção pode oferecer. A experiência da pintura reaparece aqui. Como numa equação, a procura é mais por equilibrar as diferenças mantendo viva a circularidade, a recursividade do percurso.
A exemplo de seus trabalhos recentes que combinavam diferentes materiais a partir de suas qualidades táteis e pictóricas, essas justaposições de imagens fotográficas confrontam qualidades ao reconhecimento das imagens, o que nos mergulha no terreno das lembranças mais do que no sensorial em si. A procura de um sentido muitas vezes se dá através de um enfrentamento. Reunir imagens caras aos nossos sentimentos e procurar decantá-las é um ato de enfrentamento, cujo significado é um devir que nos escapa.
A idéia que nasce diante de oposições binárias, do confronto entre duas grandezas é a da infância da matemática em mim: a Teoria dos Conjuntos e sua elegante lógica [pertence, não pertence]; [contém, está contido]; o que é maior do que o quê? Perguntas e valores que se arrastam por uma vida toda. As vezes a arte ensaia uma demonstração.

Flávio Gonçalves, julho de 2010



















A pintura já foi considerada janela, campo, plano ou pura sensação. Em todos os casos ela é ofício – do artista ou do observador. Mesmo que o grande assunto da pintura não seja a contemplação em si, esta última se apresenta como um evento para os sentidos e para o intelecto: campos de cor são aberturas para a percepção, onde nossa atenção se concentra e é absorvida. Matisse falava da cor dos céus, do espaço em volta ou da parede de um edifício da mesma forma que falava de suas pinturas. As qualidades e os sentimentos que essas suscitavam podiam surgir de qualquer lugar. Por isso ele viajou pelo mundo, mesmo sabendo que algumas paisagens não dariam boas pinturas.
Quando Amélia reúne materiais de qualidades diversas, organizados como uma procissão de tons, de cores e temperaturas diversas, a pintura surge como uma teoria pessoal da contemplação: a duração da experiência se dá na relação entre campos e planos, na capacidade de um material, por contraste de sentido ou forma, reenviar ao outro, construindo assim o espaço da experiência. Pois em alguns trabalhos nos sentimos dentro de uma recriação de uma experiência da artista, tal é o sentido de narrativa gerado pela reunião dos objetos e materiais: um padrão de madeira, um móvel anônimo, uma placa de vidro; e uma frase enigmática que parece não caber na situação a qual se refere: "Perdeu-se a nuvem sobre a ponte estreita, um brilho frio desliza pelas ruas".
Os valores do que possa ser pintura aqui não estão postos de forma direta no quadro, no plano ou no campo, mas na situação construída pelos diferentes elementos. Esse cortejo de materiais, de suas qualidades táteis, de sua sedução, como se refere a eles a artista, nos faz lembrar, por força de alegoria ou metáfora, que uma teoria não é senão um cortejo de idéias (ou mistérios), como queriam os gregos. E, partindo da racionalidade de planos verticais, horizontais, de materiais industriais, somos seduzidos a contemplar e a imaginar que essa profundidade é outra, que esse azul é outro, como nas coisas à nossa volta.

Flávio Gonçalves
Porto Alegre, junho de 2009.